Friday, May 20, 2005

O autor: Machado de assis

Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele que viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre da língua, perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica ao menino e o matricula na escola pública, única que freqüentará o autodidata Machado de Assis. De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Criado no morro do Livramento, consta que ajudava a missa na igreja da Lampadosa. Com a morte do pai, em 1851, Maria Inês, à época morando em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. No colégio tem contato com professores e alunos e é até provável que assistisse às aulas nas ocasiões em que não estava trabalhando. Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, empenhou-se em aprender. Consta que, em São Cristóvão, conheceu uma senhora francesa, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de Francês. Contava, também, com a proteção da madrinha D. Maria José de Mendonça Barroso, viúva do Brigadeiro e Senador do Império Bento Barroso Pereira, proprietária da Quinta do Livramento, onde foram agregados seus pais. Aos 16 anos, publica em 12-01-1885 seu primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito. A Livraria Paula Brito acolhia novos talentos da época, tendo publicado o citado poema e feito de Machado de Assis seu colaborador efetivo. Com 17 anos, consegue emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, e começa a escrever durante o tempo livre. Conhece o então diretor do órgão, Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, que se torna seu protetor.Em 1858 volta à Livraria Paulo Brito, como revisor e colaborador da Marmota, e ali integra-se à sociedade lítero-humorística Petalógica, fundada por Paula Brito. Lá constrói o seu círculo de amigos, do qual faziam parte Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar e Gonçalves Dias.Começa a publicar obras românticas e, em 1859, era revisor e colaborava com o jornal Correio Mercantil. Em 1860, a convite de Quintino Bocaiúva, passa a fazer parte da redação do jornal Diário do Rio de Janeiro. Além desse, escrevia também para a revista O Espelho (como crítico teatral, inicialmente), A Semana Ilustrada(onde, além do nome, usava o pseudônimo de Dr. Semana) e Jornal das Famílias. Seu primeiro livro foi impresso em 1861, com o título Queda que as mulheres têm para os tolos, onde aparece como tradutor. No ano de 1862 era censor teatral, cargo que não rendia qualquer remuneração, mas o possibilitava a ter acesso livre aos teatros. Nessa época, passa a colaborar em O Futuro, órgão sob a direção do irmão de sua futura esposa, Faustino Xavier de Novais. Publica seu primeiro livro de poesias em 1864, sob o título de Crisálidas. Em 1867, é nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial.Agosto de 1869 marca a data da morte de seu amigo Faustino Xavier de Novais, e, menos de três meses depois, em 12 de novembro de 1869, casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais.Nessa época, o escritor era um típico homem de letras brasileiro bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público e por um casamento feliz que durou 35 anos. D. Carolina, mulher culta, apresenta Machado aos clássicos portugueses e a vários autores da língua inglesa.Sua união foi feliz, mas sem filhos. A morte de sua esposa, em 1904, é uma sentida perda, tendo o marido dedicado à falecida o soneto Carolina, que a celebrizou. Seu primeiro romance, Ressurreição, foi publicado em 1872. Com a nomeação para o cargo de primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, estabiliza-se na carreira burocrática que seria o seu principal meio de subsistência durante toda sua vida. No O Globo de então (1874), jornal de Quintino Bocaiúva, começa a publicar em folhetins o romance A mão e a luva. Escreveu crônicas, contos, poesias e romances para as revistas O Cruzeiro, A Estação e Revista Brasileira.
Sua primeira peça teatral é encenada no Imperial Teatro Dom Pedro II em junho de 1880, escrita especialmente para a comemoração do tricentenário de Camões, em festividades programadas pelo Real Gabinete Português de Leitura. Na Gazeta de Notícias, no período de 1881 a 1897, publica aquelas que foram consideradas suas melhores crônicas.
Em 1881, com a posse como ministro interino da Agricultura, Comércio Obras Públicas do poeta Pedro Luís Pereira de Sousa, Machado assume o cargo de oficial de gabinete.
Publica, nesse ano, um livro extremamente original , pouco convencional para o estilo da época: Memórias Póstumas de Brás Cubas -- que foi considerado, juntamente com O Mulato, de Aluísio de Azevedo, o marco do realismo na literatura brasileira. Extraordinário contista, publica Papéis Avulsos em 1882, Histórias sem data (1884), Vária Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1889), e Relíquias da casa velha (1906).
Torna-se diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia, no ano de 1889.Grande amigo do escritor paraense José Veríssimo, que dirigia a Revista Brasileira, em sua redação promoviam reuniões os intelectuais que se identificaram com a idéia de Lúcio de Mendonça de criar uma Academia Brasileira de Letras. Machado desde o princípio apoiou a idéia e compareceu às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 1908. Sua oração fúnebre foi proferida pelo acadêmico Rui Barbosa.
É o fundador da cadeira nº. 23, e escolheu o nome de José de Alencar, seu grande amigo, para ser seu patrono.
Por sua importância, a Academia Brasileira de Letras passou a ser chamada de Casa de Machado de Assis.
Dizem os críticos que Machado era "urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico, ignorou questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura. Passou ao longe do nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no Rio, como se não houvesse outro lugar. ... A galeria de tipos e personagens que criou revela o autor como um mestre da observação psicológica. ... Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra parnasiano-realista, quando desenvolveu inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos."
BIBLIOGRAFIA:
Comédia
Desencantos, 1861.Tu, só tu, puro amor, 1881.
Poesia
Crisálidas, 1864.Falenas, 1870.Americanas, 1875.Poesias completas, 1901.
Romance
Ressurreição, 1872.A mão e a luva, 1874.Helena, 1876.Iaiá Garcia, 1878.Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.Quincas Borba, 1891.Dom Casmurro, 1899.Esaú Jacó, 1904.Memorial de Aires, 1908.
Conto:
Contos Fluminenses,1870.Histórias da meia-noite, 1873.Papéis avulsos, 1882.Histórias sem data, 1884.Várias histórias, 1896.Páginas recolhidas, 1899.Relíquias de casa velha, 1906.
Teatro
Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861Desencantos, 1861Hoje avental, amanhã luva, 1861.O caminho da porta, 1862.O protocolo, 1862.Quase ministro, 1863.Os deuses de casaca, 1865.Tu, só tu, puro amor, 1881.
Algumas obras póstumas
Crítica, 1910.Teatro coligido, 1910.Outras relíquias, 1921.Correspondência, 1932.A semana, 1914/1937.Páginas escolhidas, 1921.Novas relíquias, 1932.Crônicas, 1937.Contos Fluminenses - 2º. volume, 1937.Crítica literária, 1937.Crítica teatral, 1937.Histórias românticas, 1937.Páginas esquecidas, 1939.Casa velha, 1944.Diálogos e reflexões de um relojoeiro, 1956.Crônicas de Lélio, 1958.Conto de escola, 2002.
Antologias
Obras completas (31 volumes), 1936.Contos e crônicas, 1958.Contos esparsos, 1966.Contos: Uma Antologia (02 volumes), 1998
Em 1975, a Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação e Cultura, organizou e publicou as Edições críticas de obras de Machado de Assis, em 15 volumes.
Seus trabalhos são constantemente republicados, em diversos idiomas, tendo ocorrido a adaptação de alguns textos para o cinema e a televisão.

A história

Publicado em 1899 em 148 capítulos (todos titulados e curtos) o romance é narrado em primeira pessoa. O Dr. Bento Santiago, familiarmente chamado Bentinho, relata a sua própria história a partir de um "flashback" da velhice para a infância, com o objetivo de "atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência". Marcado para ser padre, pois sua mãe - Dona Glória tinha feito uma promessa: o filho seguiria a vida sacerdotal, Bentinho - órfão de pai - cresceu num ambiente típico de uma família burguesa: Tio Cosme, prima Justina e o agregado José Dias. Entretanto o garoto não deseja ser padre e já aos quinze anos começa um relacionamento com uma vizinha - Capitu (garota de 14 anos, de origem pobre, que vivia com os pais: Pádua e Fortunata). A convivência e as brincadeiras vão aproximando Bentinho e Capitu que de amigos passam a namorados. Os pais de Capitu posicionam-se favoravelmente ao namoro uma vez que vêem neste relaciona- mento uma forma de ascensão social; já dona Glória, alertada por José Dias, sente a promessa ameaçada; por isso coloca Bentinho no seminário. No seminário, Bentinho conhece Escobar, ficam amigos íntimos (os dois descobrem afinidades - ambos estão no seminário sem vocação sacerdotal). Anos depois, Escobar abandona o seminário e dedica-se ao comércio, posteriormente Bentinho toma a mesma atitude e forma-se em Direito. Escobar casa-se com Sancha, amiga de Capitu, e Bentinho contrai matrimônio com Capitu, ratificando o namoro da adolescência. Assim a amizade dos dois pares solidifica: moram perto e tornam-se muito unidos. O casamento entre Bentinho e Capitu começa a entrar em crise a partir do nascimento do filho Ezequiel que apresenta uma semelhança física com Escobar o que induz Bentinho a imaginar que Capitu o traiu com o seu melhor amigo. Da constatação, Dr. Bento consome-se em ciúme, o tempo vai passando e Ezequiel fica cada vez mais parecido com Escobar o que dá a certeza de que o garoto não é seu filho. Passado algum tempo, Escobar morre afogado no mar. Ao observar no velório a reação de Capitu -"ela olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas". Bentinho chega a uma comprovação: houve o adultério; ele não consegue suportar a" presença da mulher e do filho chegando até a pensar em matá-Io. Passa o casal a ter uma vida conjugal de aparência: estão, de fato separados, porém convivem (observe a sutil crítica machadiana à classe burguesa - relação hipócrita). É tentada uma reconciliação através de uma viagem do casal à Europa, não dá certo, Bentinho volta; Capitu e Ezequiel permanecem na Suíça. Mais tarde Capitu morre sem ter revisto o marido. Já adulto, Ezequiel retoma ao Brasil para visitar o pai que mais uma vez constata a semelhança física entre o filho e Escobar. Pouco depois Ezequiel morre no estrangeiro. Bentinho, cada vez mais Casmurro, fecha-se em sua dúvida. Agora, você decide: Capitu - culpada ou inocente?

Análizes do Livro

A TEMÁTICA Em rigor o tema abordado por Machado de Assis não é o adultério e sim o ciúme, tão doentio que atinge uma deformação patológica. Capitu é considerada adúltera na ótica de Bentinho que se apresenta como vitima, por isso o romance é uma verdadeira acusação. O ciúme do Dr. Bento Santiago é tão forte que ele não consegue o controle emocional (na morte de Escobar, Bentinho não consegue ler as palavras de despedidas por causa do ódio ao morto e a Capitu).
FOCO NARRATIVO A polêmica do romance: Capitu é ou não é adúltera está concentrada no foco narrativo de primeira pessoa, pois Bentinho é o personagem que narra sua própria história. Dúvidas existirão sobre a culpabilidade de Capitolina uma vez que o narrador não é confiável. A criação mimada, protetora excessivamente que teve, transformou-o num homem inseguro, de personalidade fraca, por isso Bento pode estar distorcendo os fatos. Tudo nos leva a crer que o narrador pretende única e exclu-sivamente incriminar Capitu.
RELATIVIZAÇÃO Em sua narrativa, Bento afirma o adultério, mas é uma acusação inconsistente. A principal prova de que dispõe é a semelhança física entre Escobar, amigo do casal, e Ezequiel, contestada, pois há uma também identidade física entre Capitu e a mãe de Sancha, que nem parentes são. Outro exemplo que põe em dúvida o posicionamento de Bentinho é que ele também é um adultéro. Na véspera da morte de Escobar, Betinho troca inesperados e intensos olhares com Sancha e, na hora da despedida, suas mãos se apertam demoradamente mais do que o normal, levando o narrador a ter um instante de descontrole emocional: é o sentimento de culpa que aflora. E assim o romance segue, cada registro de traição vem à tona o contrário. Num determinado mo-mento, Bentinho condena a esposa, noutro - mais introspectivo - ele se mostra ciumento atingindo uma paranóia.
RETRATO DA SOCIEDADE espaço ocupado pelo enredo corresponde à cidade do Rio de Janeiro ao tempo do II-Império, Bentinho é o típico representante das elites patriarcal, morava em bairros elegantes, a família vivia de rendas, era uma pessoa culta e de hábitos sofisticados; quando adulto, era prepotente, brutal e incapaz de estabelecer diálogo com a mulher amada. A presença do agregado José Dias - personagem plana, caricatural, simbolizada pelo seu parasitismo, é uma prova da condição socioeconômica da família Santiago, pois só as famílias abastadas do Brasil imperial possuiam agregados que, de acordo com o grau de instrução, desempenhavam funções diversas inclusive de conselheiro. Dias cuidava de Bentinho com "extremos de mãe e atenções de servo".
MATERIALISMO Capitu é o avesso social e econômico de Bentinho. Oriunda de família pobre, ela busca a ascensão à custa do casamento, por isto não mede esforços para vencer os empecilhos, o casamento com Bentinho era o seu grande projeto de vida, para alcançá-lo, enfrenta preconceitos, desigualdades financeiras. Ela adorava sair às ruas de braço dado com Bentinho a fim de que a sociedade visse que aquela menina pobre estava casada com um homem rico. É importante ressaltar o comporta-mento interesseiro de Pádua - pai de Capitu - o qual sabia que a filha de quatorze anos andava de namoro com Bentinho, mas era conivente, pois este relacionamento lhe traria benefícios: ele um simples funcionário de uma repartição poderia ter como genro um filho de uma viúva rica. Outro exemplo que comprova o caráter materialista do romance é José Dias - personagem hilari-ante, mesclado de uma dignidade pedante (gostava de usar superlativos) com uma dedicação fiel de criado. Cumpre esclarecer que a dedicação de José Dias - o agregado - garante sua sobrevivência junto à elite, por isso ele enxerga de que lado deve ficar, por isso ele toma partido do jovem Bentinho, menos por simpatia à paixão e mais por se preocupar com o seu futuro (o agregado sugere a Bentinho uma viagem à Europa para que ele pudesse ir junto).
AS DUAS FASES DO ENREDO De acordo com os fatos narrados, o romance apresenta duas fases distintas que correspondem aos momentos básicos na vida dos personagens.
FASE I - Período da adolescência (1857) - Capitu - 14 anos e Bentinho - 15 anos representa a fase mais poética, aqui Capitu se mostra uma pessoa dominadora, tomando toda iniciativa do jogo amoroso ("Como se vê, Capitu, aos catorze anos, tinha já idéias atrevidas")
FASE II - Corresponde ao período que começa com o casamento entre Bentinho e Capitu (1865). É uma fase mais realista e amargurada, cheia de conflitos, gerados pela incompatibilidade de gêneros. Bento desempenha o papel de homem patriarcal, assume o comando do relacionamento afetivo, levando-o à destruição.
ESTILO MACHADIANO Ironia e ceticismo - Machado de Assis revela uma visão cética e desencantada da realidade. Os indivíduos agem impulsionados apenas por seus interesses pessoais: vaidade, ambição, sede de poder. Diante destes valores, prefere o autor o sorriso crítico, o humor, não aquele humor engraçado, de provocar gargalhadas, e sim, a ironia sutil que conduz o leitor a uma reflexão crítica. (São exemplos de ironia e humor a erudição de José Dias, a gula do Padre Cabral, o biotipo de Tio Cosme, o comportamento de Bentinho em relação ao poeta do trem).
Linguagem - Em "Dom Casmurro," Machado utiliza todas as possibilidades de expressão que a linguagem possibilita. Ora o texto é recheado de termos atualíssimos, ora levemente arcaico. Há repúdio à retórica, à metáfora vazia, ao adjetivo banal e aos pormenores descritivos. Usando a téc-nica dos capítulos curtos e titulados, o narrador-personagem dialoga freqüentemente com o leitor, dando-lhe um cunho de cumplicidade dos fatos, ("Não consultas dicionário. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhes dão" - cap. 1, "O resto deste capítulo é só para pedir que, se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais do que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta" - cap. 92).

Escola literária: Realismo

Juntamente com o Parnasianismo e o Naturalismo, o Realismo representou uma ação revolucionária anti-romântica. As manifestações contra o Romantismo ganharam força na Europa em meados do século XIX, e atingiram o Brasil na década de 1870.
O Realismo tem seu início na França em 1857, quando Gustave Flaubert publica sua obra Madame Bovary, em que sua principal personagem busca um amor romântico, perfeito e impossível, mas a dura realidade, sem emoções, não permite realizar suas pretensões, e ela acaba por se suicidar.
O Realismo se inicia em Portugal com a Questão Coimbra, polêmica literária entre Antero de Quental, Teófilo Braga e os jovens literatos que surgiam na década de 1860, e os representantes da geração anterior, entre os quais se destacava Castilho. No Brasil, considera-se o início do Realismo em 1881, ano da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. O ambiente social, na Europa de então, sofria os efeitos da consolidação da civilização burguesa, o surgimento do proletariado e de suas lutas, das idéias do liberalismo e democracia e suas inúmeras mudanças, o desenvolvimento das ciências naturais e teorias científicas. Foi um cenário de ênfase no aspecto material, com uma forte redução no espiritualismo e críticas severas à religião, apresentada como manifestação primitiva do ser humano. Assim, no Realismo a literatura torna-se menos uma distração e mais um meio de crítica e combate às instituições. >No Brasil, uma importante transformação do cenário social foi a participação maciça da cafeicultura na economia do país e dos seus produtores na política nacional, com um perfil abolicionista e liberalizante. Iniciou-se a imigração, para a lavoura de café, de mão-de obra européia que, mais consciente politicamente e de melhor nível social, passou a exercer influência sobre o trabalhador brasileiro. Em tais circunstâncias, os intelectuais deixaram de relatar a alta sociedade urbana para retratar a população.
Assim, as características principais do Realismo incluíam a busca da realidade de vida, mostrada como realmente é, com os lados positivos e negativos; um pessimismo latente, onde as criaturas eram más e mal intencionadas, ao contrário do Romantismo, onde eram tratadas como bondosas; uso de temas de caráter grosseiro, para chocar os padrões morais do leitor; preocupação em relatar os fatos comuns do dia-a-dia, que no Romantismo eram preteridos pelo extraordinário, pelo invulgar; tudo descrito com minúcias, muitas vezes em demasia.
O Realismo não foi tanto uma escola literária como um sentimento novo, uma nova atitude espiritual em que couberam direções muito divergentes, que se alçou contra um idealismo sem idéias. A sua conseqüencia mais vital e duradora foi romper com o patriotismo provinciano dos ultra-românticos, abrindo o espírito nacional a todas influÍncias externas e ampliando a gama de escolha dos motivos literários.
Embora tenha conhecido na França a sua forma mais rigorosa, o Realismo é igualmente um fenômeno europeu.
Em Portugal, as semelhanças entre Realismo e Naturalismo eram muito fortes. O principal representante do Realismo português foi Eça de Queirós, com a publicação do conto Singularidades duma rapariga loira que, na opini"o de Fialho de Almeida, foi a primeira narrativa realista escrita em portuguÍs. Com o aparecimento de O crime do padre Amaro e de O primo BasÌlio, ambos de Eça de Queirós, onde Realismo e Naturalismo se confundem, a nova escola implantava-se definitivamente. Mas na dÈcada de 1890, o Realismo, cada vez mais confundido com o Naturalismo, já havia perdido muito de sua força.
Rigorosamente falando, não se considera que, na literatura brasileira, tenha existido um movimento caracteristicamente realista ou naturalista, mas sim algumas obras que, por sua motivação ou estrutura menos ou mais anti-romantica, escapam às classificações da época e se identificam com as linhas em questão. Ainda assim, vale citar, pela importância e presença, Raul Pompéia (O Ateneu, 1888) e Aloísio de Azevedo (O Cortiço, 1890).
Temas relacionados:

• Aluísio de Azevedo

• Antero de Quental

• Castilho

• Eça de Queirós

• Fialho de Almeida

• Flaubert

• Machado de Assis

• Naturalismo

• Parnasianismo

• Raul Pompéia

• Romantismo

• Teófilo Braga